A recente desvalorização do dólar, na sequência da suspensão das tarifas pela administração Trump, sugere uma falta de confiança na implementação das suas políticas económicas. A “guerra comercial” prejudicou as empresas e os consumidores, ameaçando o crescimento económico dos EUA.
A nível mundial, a volatilidade do dólar levou os bancos centrais a diversificarem as suas reservas para o euro, para o yuan e até mesmo para o ouro. A proporção das reservas internacionais em dólares diminuiu de 73% em 2001 para 58% atualmente. Esta desdolarização é crucial para economias como a de Portugal que, embora historicamente expostas ao euro no seu comércio com a União Europeia, têm vindo a diversificar os seus mercados e a aumentar a presença em economias fora da zona euro.
As exportações para fora da União Europeia têm vindo a crescer, com destaque para os EUA, que se consolidou como o principal destino extracomunitário das exportações portuguesas (6,7% das exportações nacionais em 2024). Tradicionalmente, o estatuto do dólar como moeda de reserva tem trazido vantagens aos EUA, atraindo investidores para as obrigações do Tesouro em tempos de crise e permitindo empréstimos mais baratos. No entanto, as taxas das obrigações soberanas europeias caíram enquanto as taxas dos EUA subiram, um fenómeno invulgar.
Se as obrigações do Tesouro perderem o seu estatuto de porto seguro, os EUA poderão enfrentar uma crise orçamental, dado o seu défice de 7% do PIB. Taxas de juro mais elevadas aumentariam o custo do financiamento dessa dívida. Portugal, por exemplo, viu a sua dívida pública ultrapassar os 130% do PIB na sequência da crise da dívida soberana europeia.
Mas poderão os EUA beneficiar de uma desvalorização? Uma moeda mais fraca aumenta nas exportações e torna as importações mais caras, beneficiando o setor exportador. Contudo, do mesmo modo, um dólar mais fraco pode levar a um aumento nos preços das
matérias-primas como o cobre ou o petróleo, o que pode impactar os custos de importação para Portugal, afetando setores como a energia e os transportes. Embora isso possa beneficiar a balança comercial de alguns países exportadores, também pode contribuir para uma maior pressão inflacionista interna.
O cenário é complexo. As importações mais caras, juntamente com as taxas aduaneiras, podem aumentar a inflação. Se a Reserva Federal não controlar a subida dos preços e enfrentar um abrandamento económico, poderá cair numa situação de estagflação.
E que moedas poderiam substituir o dólar como reserva internacional? O euro é a alternativa mais lógica devido à sua estabilidade e liquidez. O franco suíço é estável, mas carece de volume. O yuan, embora apoiado pela dimensão da economia chinesa, enfrenta limitações devido ao controlo de capitais e à falta de transparência.
Curiosamente, os bancos centrais aumentaram as suas reservas de ouro. De acordo com o Conselho Mundial do Ouro (2024), compraram mais de 1.000 toneladas métricas em 2023, o valor mais elevado em décadas, com destaque para a Rússia, a Turquia e o Brasil. Poderemos assistir a uma maior presença de moedas 'intermédias', como o dólar canadiano, australiano ou o peso mexicano, nas reservas internacionais. Portugal tem seguido uma política prudente no âmbito da gestão das reservas do Banco de Portugal, com diversificação de moedas e prazos dos ativos, ainda que dentro dos constrangimentos do euro como moeda única.
A curto prazo, possíveis acordos comerciais poderão dar algum descanso ao dólar. No entanto, uma recessão nos EUA poderá enfraquecê-lo ainda mais. A instabilidade política e as perceções de risco estão a afastar os investidores e a eliminação dos direitos aduaneiros não é suficiente para restaurar a confiança. Em última análise, está em causa o papel hegemónico do dólar no sistema financeiro mundial. Embora a sua substituição não seja iminente, os sinais de mudança são evidentes. Portugal deve estar atento.
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