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PME em ascensão, banca em transformação

O potencial de internacionalização das PME, tradicionalmente orientado para a exportação, enfrenta hoje a crescente complexidade de um contexto global marcado pela trajetória protecionista da Administração norte-americana, a consolidação de um mundo mais multipolar do ponto de vista monetário – e, portanto, a gradual esdolarização do comércio internacional – e a instabilidade geopolítica tanto no Leste Europeu como no Médio Oriente.

Tudo isso tem levado a que muitas PME adotem uma mudança estratégica no que diz respeito aos seus fornecedores financeiros.

De facto, a revolução digital no setor dos serviços financeiros trouxe ao mercado uma diversificação de opções que supera, em grande medida, algumas das limitações decorrentes do sistema bancário clássico. Trata-se de uma situação que as próprias PME evidenciam quando questionadas sobre o assunto, como demonstram alguns estudos setoriais: 79% das PME com atividade internacional revelam que os bancos tradicionais são incapazes de satisfazer as suas necessidades no que diz respeito a pagamentos transfronteiriços.

E a resposta a esta limitação é a abertura das PME a novos fornecedores não bancários. Estes já controlam 15% a 25% do mercado de pagamentos internacionais e prevê-se que esta percentagem aumente para 30% ou 40% em 2030, de acordo com um estudo do JP Morgan.

O panorama aponta, portanto, para um mercado de pagamentos internacionais em rápida expansão que, no entanto, continua sem despertar o interesse dos operadores bancários tradicionais. Os dados são elucidativos: o volume de pagamentos internacionais das PME passará de 17 biliões de dólares em 2023 para 24 biliões em 2030, com uma taxa de crescimento anual de 5%. Mesmo assim, embora 79% das PME considerem que as vendas internacionais são essenciais para o seu crescimento, 60% destacam a incerteza nos prazos de pagamento como um problema crítico, de acordo com um estudo da Informa, e 85% identificam o risco cambial como um dos principais desafios de gestão, de acordo com um relatório da Kantar.

O facto de os bancos tradicionais não terem enfrentado estes problemas que afetam as PME para lhes dar uma resposta adequada tem origem na crise financeira de 2008. A partir do colapso do mercado hipotecário subprime, as grandes instituições concentraram os seus recursos nas multinacionais, abandonando progressivamente um segmento que mostrava sinais de crescimento global. De certa forma, foi um problema de natureza estrutural e organizacional, pois os serviços bancários foram concebidos para responder às necessidades de empresas dotadas de departamentos de tesouraria, contabilidade e equipas especializadas; um esquema que raramente coincide com a realidade das PME.

Assim, essencialmente, a resposta dos bancos tradicionais consistiu em simplificar os produtos existentes e, neste contexto, tratar as PME como um segmento de mercado homogéneo, sem parar para pensar que são estruturas com modelos de negócio e problemas específicos. Se a tudo isto acrescentarmos a implementação, a partir de 2008, de novas restrições regulatórias, que sobrecarregaram ainda mais os processos operacionais das instituições tradicionais, teremos o quadro completo que explica a crescente distância entre as expectativas das PME e a capacidade dos bancos para as satisfazer.

Esta lacuna no mercado está a ser preenchida há alguns anos pelo segmento fintech, que baseou a sua proposta de valor ao mercado na utilização de soluções tecnológicas que lhe proporcionaram duas vantagens competitivas fundamentais. Por um lado, a hiperpersonalização em grande escala dos serviços e, por outro, o acompanhamento no seu processo de abordagem de novos mercados internacionais e, em geral, de crescimento. Assim, as tecnologias de cloud e a inteligência artificial generativa tornaram hoje possível a escalabilidade, eliminando a fragmentação típica da oferta bancária tradicional e "democratizaram" o acesso a serviços financeiros que, historicamente, estavam reservados apenas às grandes empresas.

As PME já não aceitam ser atores secundários no comércio global. Querem ter as mesmas capacidades que as multinacionais. E, graças à inovação tecnológica trazida pelos novos operadores financeiros no mercado, podem agora expandir-se, cobrar e pagar internacionalmente com a mesma eficiência. A questão agora não é saber se as PME se internacionalizarão – é evidente que o fazem e continuarão a fazê-lo no futuro –, mas sim até que ponto é que as instituições financeiras estarão preparadas para acompanhá-las nesse processo.

Será que os bancos serão capazes de satisfazer as necessidades de um setor como o das PME, que se revelou extremamente dinâmico e com grande potencial de crescimento? A resposta de alguns bancos a este desafio consistiu na aquisição de fintechs especializadas neste segmento produtivo. Contudo, ainda existem certas barreiras culturais que prejudicam as expectativas das PME em relação aos bancos. Estes devem aprender a operar a dois ritmos diferentes: mantendo, por um lado, a solidez e o cumprimento normativo que os caracteriza e, por outro, permitindo que as suas divisões fintech operem de forma rápida e assumam riscos calculados.

Por conseguinte, a solução mais promissora para o futuro parece ser um ecossistema no qual bancos tradicionais, fintechs e fornecedores de tecnologia colaboram e integram as suas respetivas valências: a solidez de capital e a conformidade regulatória dos primeiros, com a inovação tecnológica e a agilidade operacional dos segundos. Isso implica uma profunda reformulação do conceito de concorrência, adotando lógicas de cooperação nas quais as fronteiras tradicionais entre instituições se esbatem progressivamente.

Por outras palavras: a banca tradicional enfrenta o duplo desafio de investir decididamente em tecnologia e renovar a sua cultura organizacional e, adicionalmente, construir alianças autênticas com o ecossistema fintech, evitando a tentação de adquirir sem promover a inovação. Só através desta transformação cultural poderá manter a sua relevância num mercado em constante evolução.

 

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