Há um custo que não aparece na fatura, não consta do orçamento e raramente entra nas reuniões de gestão. Mas está lá: a corroer margens, a reduzir lucros e, por vezes, a transformar bons negócios em resultados abaixo do esperado. Chama-se risco cambial. E muitas PME portuguesas continuam a subestimá-lo.
O contexto atual tornou este tema difícil de ignorar. Em 2025, o dólar norte-americano desvalorizou de forma expressiva face ao euro, cerca de 13%. Para empresas que exportam para os Estados Unidos ou faturam em dólares, isso significou uma redução efetiva da receita, mesmo quando o negócio correu como previsto. Já para quem importa matérias-primas cotadas em dólares, houve algum alívio nos custos – embora nem sempre aproveitado de forma estratégica.
A volatilidade cambial não é nova. O que se tornou mais evidente foi a intensidade e a rapidez com que hoje afeta a atividade das empresas. Tensões geopolíticas, tarifas comerciais, alterações nas cadeias de abastecimento e divergências entre a política monetária da Reserva Federal e do Banco Central Europeu criaram um enquadramento em que as moedas oscilam por razões externas ao desempenho das empresas.
Quer isto dizer que uma PME portuguesa pode executar bem a sua operação, cumprir objetivos comerciais e manter a competitividade, mas ainda assim ver a sua margem deteriorar-se por não ter protegido a sua exposição cambial.
Este é um problema particularmente relevante num país em que 99% do tecido empresarial é composto por PME. Muitas têm atividade internacional, mas nem sempre dispõem dos recursos ou do conhecimento necessários para implementar uma estratégia de cobertura cambial. A gestão deste risco continua, por isso, a ser vista como algo reservado às grandes empresas. É uma perceção errada.
Existem instrumentos simples que permitem às empresas ganhar previsibilidade e proteger as suas margens. Um contrato de fixação cambial (forward, na linguagem dos mercados), por exemplo, permite definir antecipadamente a taxa de câmbio aplicável a uma transação futura. Na prática, a empresa passa a saber com maior rigor quanto vai pagar ou receber, independentemente da evolução do mercado.
O impacto pode ser significativo. Uma empresa têxtil que pague três milhões de dólares por ano a fornecedores asiáticos e não cubra o risco cambial fica exposta a perdas relevantes sempre que o mercado se move contra si. Numa oscilação moderada do câmbio, esse impacto pode ultrapassar os 100 mil euros – um valor significativo para a rentabilidade de muitas PME.
A questão, por isso, não é se a volatilidade cambial vai continuar a fazer-se sentir. Porque vai. A questão é se as empresas portuguesas estão dispostas a continuar a absorver esse custo silencioso sem o integrar na sua gestão financeira.
Gerir risco cambial não é especular sobre o mercado. É, cada vez mais, uma prática elementar de prudência financeira. Num contexto externo cada vez mais instável e exigente, essa proteção deixou de ser apenas uma salvaguarda: é também uma vantagem competitiva.

